segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Sol da manhã

Os exames eram cruéis e verdadeiros. A morte tinha cheiro. Sabia que não iria passar daquela solitária e isolada madrugada. Queria pedir perdão e perdoar muitas pessoas. Não daria tempo. Uma madrugada é pouco para uma vida inteira. Precisa de tempo, precisava de vida.

Atrasou todos os relógios, acendeu as luzes, ligou o forno, abriu as janelas, regou as flores do jardim. Queria enganar o que era iminente. A madrugada acabou. Como acaba a vida e os potes de sorvete.

O dia chegou. Não enganou ninguém. Nada, nada. No entanto, viu o sol nascer. Coisa que nunca havia feito antes.

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Da poeira não te livrarás

“Do pó vieste e ao pó voltarás”, diz a passagem bíblica. Tomara que eu seja perdoado por tal ajuste, mas eu mudaria a frase para “da poeira vieste e na poeira continuarás”.

Existe quem defenda que nós, seres humanos cheios de teias de aranha na cabeça, surgimos da poeira. Crenças à parte, essa pequena formação de partículas estará sempre em nossas vidas. Não duvide disso.

O respaldo científico para tal tese tem a densidade das ideias do astrônomo americano Carl Sagan que já disse que somos poeira das estrelas.

Crianças, normalmente, têm problemas alérgicos com ela. Sim, ela, a poeira, que nos acompanhará do nascimento até a morte. Quem disse que nascemos e morrermos sós? Que ideia mais empoeirada. A poeira estará perpetuamente conosco.

São muitas as formas de gerar poeira. O vento, a dilatação do concreto das construções, as queimadas feitas por nós (que variam do processo industrial ao simples ato de acender um cigarro), entre outras. A poeira está no meio de toda a humanidade.
“Há indícios de que grandes quantidades de partículas de areia são transportadas, pelo ar, da África até a selva amazônica”, afirmou o físico Cláudio Furukawa, da USP, ao site Mundo Estranho.

Quando ficamos adultos, saímos da casa dos pais, achamos que vamos nos livrar de muitas coisas. De fato, nós nos livramos. Menos das contas para pagar e da poeira. Nessa fase da vida, se não lutarmos contra ela, ela nos vence. De goleada. Toma conta de nossas casas. Até crianças de colo são mais resistentes aos efeitos destas pequenas partículas do que jovens-adultos.

Também têm grupos que garantem que viramos poeira cósmica quando morremos. Eu, já cercado pela investida opressora e nada pueril da poeira, estava planejando dar uma revolucionária faxina aqui em casa, mas é melhor conviver com a realidade.

sábado, 21 de outubro de 2017

A blusa é da feirinha

Uma ex-namorada me disse, certa vez, que eu não sei receber elogio. Ela costumava me elogiar, e eu, feliz pelo comentário, dava um jeito de fazer algum comentário crítico sobre o motivo do elogio proferido por ela. Ela ria da minha exótica forma de modéstia.

“Nossa, que texto legal que você escreveu, Felipe”, ela disse certa vez. Eu respondi: “Nem deu trabalho. Foi fácil, fiz em poucos minutos, poderia ter ficado bem melhor”.

Outra vez, um amigo, em uma mesa de bar, comentou essa minha estranha loucura. “Você não sabe receber elogios, cara. Você fica sem jeito e dá uma resposta tosca”.

Em um papo recente, com uma amiga, ela falou que muita gente costuma fazer isso. Mas não só com elogios pessoais ou profissionais. Também serve para objetos. Ela revelou que quando alguém fala que gosta de uma roupa dela, ela frisa que foi barata, que é da feirinha, tecido fraco, enfim, desmerece o alvo da citação alheia. Para finalizar, ela concordou com minha ex-namorada e meu atual amigo. Entrou para o time dos que perceberam que não sei receber elogios.

Eles têm razão. Não sei explicar bem o porquê disso. Talvez precise fazer uma análise. Eu fico feliz (e muito) com elogios. Sobretudo quando vêm de pessoas que gosto e admiro. Mas acabo não respondendo da melhor forma. De repente, é melhor agradecer rapidamente, meio tímido, e só.

Pensando bem, creio que minhas respostas se deem por conta do meu lado crítico – inclusive comigo mesmo. Contudo, isso é outro papo. Até porque, meu lado crítico nem é tão crítico assim, gosto de um monte de coisa de qualidade duvidosa...

Todavia, podem elogiar este texto. Ele foi feito em poucos minutos, poderia ficar bem melhor, mas vou receber bem os elogios - eu acho. A propósito, quando escrevi o texto, estava usando uma blusa do Treze Futebol Clube, que todo mundo elogia quando me vê com ela, no entanto, ela foi comprada na feirinha de Itabaiana, no estado da Paraíba.


sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Quase bipolar

O mundo nas costas, a vista embaçada. Na boca, o sabor é de algo entre o amargo e o insosso. Nada está bom. Nem o que faz de menos pior. Difícil descrever o cenário. É ruim falar do que vai mal.

Num instante, e por um instante, a postura fica reta e firme, como a de alguém que vive de aparências, olhos verdes de beleza e esperança. Talvez tenha sido por conta do açúcar no café.

O Sol entra, já no eterno quase noite, pela janela. Deseja falar como vai tudo bem.
Passou. Foi só instante, mesmo. A boca sorri sem impulso.

O desejo que sempre fica é o de que a ordem e a sequência da estrutura descrita com dificuldade mude. Seria bem melhor se a balança fosse desfavorável de outra forma.