terça-feira, 15 de agosto de 2017

Despertadores ao contrário

Os grilos lá longe. A chuva no teto. Ventilador aos pés. Nas folhas, o vento. Nos galhos, os pássaros. Bob Dylan no fone. Você dormindo, respirando, do meu lado.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Areia

Clara esperou por Peu por meses. Quantos? Ela, mesmo com pouco tempo de estudo, sabia até o número de horas. Eu perdi as contas. Não se calcula grãos de areia. Ela ficava na beira da praia esperando, mesmo sabendo que Peu poderia vir por outro cais. O Sol mudava de posição e Clara ficava lá, no mesmo lugar. Parecia um personagem de Jorge Amado, tema de música de Dorival Caymmi.

A mulher, que usava vestidos rotos, lavava o cabelo todos os dias. Reclamava da quantidade de areia na cabeça. Após essa limpeza capilar, ela ia para a praia esperar por Peu, que não vinha. O cuidado com a limpeza dos pés também era intenso. Extremamente. Sempre que podia, tirava os muitos grãos de areia dessa parte do corpo. Como se fosse possível para quem mora perto da praia, Clara resistia em manter os pés livres de grãos de areia.

Quando o tempo decidiu, Peu chegou. Ele estava diferente. Não era só a barba grande e o pequeno número de peixes na rede. Clara não sabia o porquê, mas ele estava diferente. Quem está sempre igual sente as mudanças.

Depois da chegada de Peu, os dois voltaram para a vida simples que levavam naquela modesta comunidade de pescadores, em um desses locais que o Brasil ainda esconde.

Estava tudo igual. A mesma rotina: Peu pescava e Clara cuidava das coisas, da casa. Mas Peu estava diferente. Às vezes, ele falava sobre a última longa viagem de barco, sobre o que viu em grandes cidades. Clara sentia um misto de encantamento e medo. Os dois se parecem, mesmo.

Um dia, Peu limpava peixes e Clara lavava os pés, após lavar o cabelo. Ela disse para ele que iria à praia e o pediu para esperar em casa. Sem muito rumo, mas com alguma direção, Clara saiu andando pelas areias. Sujando os pés que acabara de limpar. O vento também levou areia para os cabelos. Clara nem sentiu a quantidade de grãos que tinha cabeça e continuou andando em frente, sujando os pés.

terça-feira, 27 de junho de 2017

Crônica de tempo e vento

Ela era explosiva. Eu, paz e amor. Amava-me no volume máximo. Para mim, melhor no escuro. Se ela guiava para o cinema, eu andava pelos livros. Mas também fazíamos caminhos inversos.

Rio-São Paulo, ponte aérea que o tempo e o vento não levam. Enquanto ela lia Érico, eu folheava Luis Fernando. Estávamos em casa, já éramos uma família.

Ela, shopping lotado. Eu, torcida organizada no Maracanã. Sempre chegava na hora. Já os meus relógios constantemente atrasavam.

Quando eu tinha o cabelo mais cumprido, era o dela, corte Chanel, que o vento chamava para dançar. Não tiro a razão dele, o vento. Eu fazia o mesmo quando nós dois éramos um só, deitados na vida. E éramos um só. Sempre fomos. Até quando estávamos diferentes.

Hoje, tenho entradas de calvíce. Uso relógios que meu pai usava. Esses não atrasam mais. Mas agora é tarde. Perdi a hora. Dela, sei quase nada. De vez em quando bate um vento frio na cabeça, aquece a memória e só. E só. Deu minha hora.

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Olhos abertos

Enquanto você dorme, uma cidade acorda para trabalhar. Enquanto você dorme, com os vidros da janela te guardando e a TV ligada em um filme B - corta -, algumas pessoas sangram. Enquanto você dorme e parece segura, é noite de lua cheia.

Enquanto você dorme e se esconde nos lençóis, um homem velho e sério bebe, revelando seu pior lado. Enquanto você dorme, a prostituta deita. Enquanto você dorme, o porteiro cochila.

Enquanto você dorme sem razões, fazem contas. Enquanto você dorme, pessoas mentem. Enquanto você dorme, os gatos ganham as ruas. Menos o seu, porque ele gosta de te ver dormir.

Enquanto você dorme, sonha. Acordado, também sonha o rapaz com o caderno no colo. Enquanto você dorme, uma vida acontece. Enquanto você dorme, dorme, dorme, dorme e dorme.

Enquanto você dorme, eu fico aqui, de olhos abertos, te admirando. Pouco importa o mundo lá fora. Se eles pudessem te olhar dormindo, te esperariam acordar para fazer qualquer coisa, não fariam nada enquanto você dorme.

domingo, 9 de abril de 2017

Bandolim

Ela só toca bandolim sozinha. Toca de frente para o espelho, para ter certeza de que é sua única espectadora. Seus cabelos cacheados dançam. Não sei se por causa da música ou do vento que entra pela janela aberta. Acho que é a música. O som é tão lindo quanto os cabelos dela. Ela só toca bandolim sozinha, mas a janela está aberta e eu moro no prédio em frente.